All the time in the World

Entrar no quarto. Olhar em volta meio distraído. Colunas. Rodar para a direita. Play. Que bom.


(Sim; Thom Yorke)

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Musica de Embalar

Com certeza um regresso sem sal nem pimenta. Mas que importa?


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FignerSnap

Pequenos passos ecoam ritmados no chao de pedra. Um, dois, um, dois, um, dois..., e mais um par de saltos altos aparece, tres, quatro, tres, quatro, e tres pares de mocassins, cinco, sete, nove, seis, oito, dez..cinco, sete, nove, seis, oito, dez..e mais um par de mocassins e uns saltos altos, onze, treze..clop,clop, doze, catorze, onze, treze, clop, clop, doze, catorze..
..um pequeno frio de primeiro Inverno abafa os passos no chao de pedra, um, tres, treze, onze, dois, quatro, doze, catorze, um, dois, clop, clop, clop, clop, cinco, sete, seis, oito, tres, onze, quatro doze, um, dois, treze, catorze,
..e um sino bate as doze badaladas da meia-noite no frio de vapores martelados em passos e passinhos, Dong, clop, clop, clop, clop, Dong, clop, clop, clop, clop, Dong...
..e vozes abafadas surgem esganadas por pescocos em esforco, soando entre os passos na pedra e o sino que bate, vozes sem som tentam comer os passos que so o chao pode ouvir e se perdem nos ecos da noite.
..Meia-noite.
Os vultos, clop, clop, aproximam-se no silencio das castanholas do final do patio. Um, tres, dois, quatro..um, tres, dois, quatro. Chegam os dois primeiros. A porta range,
"Boa noite senhores". Silencio na resposta. "Facam favor de entrar."
E entram, um a um, dois a dois, aos pares e aos grupos. A musica alegre abafa os passos que correm do fundo da enorme sala. Aparece o anfitriao entusiasmado e abraca os escuros convidados. Beijam-se, riem alto, mexem muito as maos e os corpos,
A musica toca ensurdecedora por colunas e colunas espalhadas pelo salao, correm os primeiros copos, os segundos, entram mais saltos altos do silencio da noite para o festim da grande sala, passam travessas com a ceia, e mais copos, e a pista de danca ja esta cheia..
..e a musica baixa de volume - se calhar, nunca existiu - e de novo os saltos saltitam pela pista em ritmos descoordenados. Nao se ouvem os pequenos gemidos que as dancarinas suspiram as suas amigas e namorados, so corpos que se movem e maos desastradas que deambulam desconexadamente ao ritmo das palavras que nao se dizem,
Muitas gargalhadas sob a luz clara do enorme castical, e amigas que se abracam, e casais que se beijam, e o bebado que se vomita, e grupos de rapazes a galar as amigas, e a animacao reina na festa do silencio, a festa das palavras nao-ditas e das gargalhadas mais sonoras.
E sempre, sempre, os saltos e solas que ecoam no marmore polido, eternos interpretes das conversas por dizer.
Clop, clop, clop, clop, ahahah!!, clop, clop..clop, clop, clop, clop, um, tres, cinco, sete, nove, onze, treze, quinze, dezassete, cinquenta e um, dois, quatro, seis, dez, doze, dezasseis, dezoito, cinquenta e dois, na confusao total do um, um, um, dois dois, tres, quinze, quinze, vinte e dois, um, tres, cinco, cinco, cinco, e o dezassete pula como um doido, dezassete, dezoito, dezassete, dezoito, dezassete, dezoito, dezassete, dezoito, dezassete, dezoito, dezassete, dezoito, nao consdegue parar de dancar,
E cai a noite e comeca o dia, e os ultimos saltos fogem do marmore para o sol alegre da pedra ja quente, e abracam o amigo que fez anos sem lhe cantarem os parabens (so palmas, sempre as palmas das maos),
E sai o ultimo aos tombos, arrastando-se pelo pavimento, seeeeteee, oiiiitooo, seeeteee, oittoooo, e arrasta os pes no chao, em solas ja gastas..
..e fecha-se a grande porta da grande festa, e o dono abraca o mordomo, e recebe as "Boas noites senhor",
e deita-se no silencio da madrugada onde os passaros cantam a sua janela e os motores dos carros roncam alto demais para que ele ouca.
E no quarto ao lado o mordomo revira-se na cama arrepiado com o ensurdecedor ronco da primeira madrugada, exausto com a arrepiante opereta da festa dos anos.
"Estranha musica", pensa, antes de lhe rebentarem os timpanos, "estranha musica, a da festa dos surdos-mudos."

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Vacuum Cleaner

Finalmente o dia acabou. Uma musica alegre acompanha copos e copos de vinho tinto e branco que escorregam bocas abaixo. Londres. Por fim, musica boa.

De todo o Mundo, chegamos a procura de um lugar no topo. Fatos impecaveis, oculos a condizer, saias pela altura certa, sorrisos verdadeiros e falsos, entusiasmo e curiosidade. Londres, la em baixo. O rio passa cinzento sob a nossa janela. Hoje, com uma luz especial. O primeiro dia "of hopefully a long and successful international career with us"

Pergunto em volta, de onde sao voces, onde estudaram, que linguas falam?; a que lugar chamam casa?

De todo o lado, em todo o lado, todas; nenhum

So tu, Luis, aqui entre nos, é que tens a tua Lisboa, o teu Portugal, o teu ultimo reduto.

E voces nao tem familia, pergunto, e Natais com avos e tias-avos, e arroz de pato aos domingos a tarde? Que e isso?, respondem.

Estamos introduzidos. Somos 25 a procura do tecto do Mundo. Devemos estar perto: ha 100 andares abaixo de nos.

Quanto mais alto o ego, maior a queda.

- So, what's your name, I don't believe I have met you before..
- Oh I am Jiayioo Yieming! And you??
- Luis!
- Nice to meet you Louis! Where are you coming from?
- Lisbon, Portugal. And you?
- Singapore. But well I did my studies in New York and my masters in Paris.
- Oh, I see. I will have a hard time memorizing that name of yours, you know..
- Oh!..Well if it helps, it means "bright light" in chinese
- So it is a chinese name??
- Yes.
- And do you like it then??
- It's allright. Don't you??
- Well yes. It 's sweet. But maybe I would have chosen a different one for you..
- Oh really, which one?

Olho-a por breves segundos e, na amalgama de vozes, vinho, "nice to meet you's" e "I wanna do my second professional rotation in Sidney or New York", a unica verdade que me sai daquela cara abolachada é

- "Vacuum Cleaner"

Resisto a debitar em palavras este enorme disparate que aqueles olhos bem abertos me provocam, calo-me, sorrio para dentro, respondo banalmente "Pretty Princess" à minha nova colega e retiro-me à procura de uma garrafa aberta.
Por sorte, ha mais do que uma.

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now @ large




...lá vou eu




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London Calling

Ansioso; Nostálgico,
Com receio do deconhecido mas confiante para enfrentá-lo.
Triste, tristíssimo, de rastos, pelo que deixo para trás;
Contente, pelo que vejo para a frente, ainda baço, ainda a meia-luz;
Curioso;
Nervoso;
Com vontade de ficar,
De não ir nunca
Mais
De ser só isto que me satisfaz;
Com vontade de não ser audaz
De não ser curioso,
Irrequieto,
Inconformado;
Sem sentimento fixo,
Só um arrepio a toda a hora;

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Faking the Books


We’ve been done before
and now we try to forge ourselves
I’ll be true again
But until then I fake the books






Esta música já por aqui andou, mas noutras circunstâncias. Gosto desde conceito, nunca o tinha visto abordado em nenhuma música.
Já todos fomos feitos, à nascença, e agora, diz ela com voz amarga, agora tentamos moldar-nos. Reinventar-nos. Voltarei a ser eu mesma, à minha ideia original, mas até lá vou falsificar os livros.
Falsificar os meus genes, a minha fórmula original. Moldar-me ao dia de hoje, forjar os planos pré-determinados do meu eu, que estão lá para mim desde que apareci.
Gosto de ouvir esta música e saber que me estou a adaptar a cada momento a esse momento exacto, moldando a minha forma original às minhas ideias de hoje, enganando os meus registos até ao dia em que voltar a ser eu mesmo, que pode ser amanhã ou que pode ser nenhum dia.
Na verdade, o que ela diz é que não há limites para ninguém.

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