Hoje sonhei que a minha mae me obrigava a casar com uma pessoa que conheco. Tudo estava preparado, a festa, os convidados, as expectativas sociais. Era o meu casamento. A decisao de uma vida.
Mas eu nao queria. No ultimo dia arrependi-me. "Mae, nao quero casar com ela!!"; estava aterrado.
"Agora ja esta tudo combinado, agora tem de ser."
"Nao nao! Mae, nao quero!! Eu nao gosto dela! Nao sei onde estava com a cabeca quando combinei isto. Nao e nada disto que eu quero!!"
"Oh filho nao ha volta a dar agora. Ja temos a igreja marcada e tudo. O padre ta ca amanha ao meio-dia em ponto."
E na minha cabeca desesperada, a imagem da noiva de branco, aquele paozinho sem azeite nem sal!!, "mas que mal fiz eu, meu Deus??", e a minha liberdade esvaia-se no sorriso cinico do meu pai,
"As decisoes estao tomadas Luis", e eu arrancava cabelos com ambas as maos, "nao ha volta a dar."
Meu Deus, meu Deus, revolto-me desesperado, e uma luzinha entra pela janela.
Ai.
Ai. Nao quero casar com esta gaja!
Que horas sao?
Quatro e trinta e oito. Mae?
Nao esta aqui a minha mae. Que quarto é este?
Agua. Agua. Meia garrafa. E a noiva esta deitada ao meu lado. Ai!! Viro-me. Nao. Nao. So um candeeiro. Luz,
Luz!!
Fundida.
Mae nao!!!!!! Nao quero casar com ela!! Quero ficar sozinho; e a minha vida cai-me aos pés.
Pés. Andar. Saio da cama. Ate a porta. Interruptor. Luz.
Luz. Luz. Dia. Noite. Dia.
Olhos bem abertos.
Noite escura. Quarto com luz.
Foda-se. Que medo. Que susto.
Meu Deus.
Véus na noite
Sem titulo. ou entao: um par de caras
As vezes olho para certas caras e tenho pena das pessoas. Certas caras fazem-me pena. É um sentimento horrivel e desconcertante. Nao percebo se é solidário, arrogante ou impotente.
Sem duvida, completamente ignorante. Nao sei explicar.
Fazem-me pena, certas caras; certas pessoas por detras de certas caras.
Menino mau
Antonio so tinha ideias de menino mau.
músicas soltas
Nickelback
Viver para Sempre
Um ano bom
2007 foi um bom ano.
Nunca é muito bom viver a vida em períodos, como se isto não fosse um percurso contínuo sem fragmentos independentes, mas dá jeito parar alguns minutos e reconhecer o que foi bom.
Na realidade, não há outra razão para viver que não a acumulação de boas memórias. No fim, tudo terão sido memórias; que peso na consciência!, que desperdício!!, se não tiverem sido boas.
2007 trouxe-me um mergulho com 20 tubarões de três metros durante meia hora. Passei horas e horas debaixo de água a ver as maravilhas de um mundo à parte nos mares mais transparentes. Aprendi a dançar salsa afogado em Mojitos. Subi e desci vulcões. Pesquei à linha num céu limpo até ao dia nascer. Procurei pumas em florestas virgens. Senti-me sozinho no Mundo. Senti-me Rei do Mundo.
Fiquei fluente em espanhol, melhorei o francês e o alemão e já consigo pensar em inglês sem ter de traduzir.
Andei pelo México, pelo Belize, pela Guatemala, por Cuba, pelas Honduras, pela Nicarágua, por El Salvador e pela Costa Rica.
Saí à noite em Nova Iorque, Londres e Lisboa (aqui, em doses desnecessariamente excessivas), para além das capitais de toda a América Central.
Vi, como sempre sonhei, a Cuba de Fidel.
Em 2007 fiz vários amigos de intensidade e intimidade eterna, pelos quatro cantos do Mundo. Emigrei em Outubro e deixei para trás um mundo de boas memórias.
Voltei a acreditar que existem mulheres perfeitas e apaixonei-me duas ou três vezes. (Para além daquelas em que não fui correspondido - mas há coisas piores.)
Em 2007 encontrei um grupo de pessoas com quem partilhei os melhores momentos da minha vida, defini o meu espaço e as minhas prioridades. Comprei mais roupa por minuto do que em todos os outros anos juntos - acho que estou mais vaidoso.
Passei o ano sem carro e, mais de metade, sem emprego. Agora que penso, estive de férias de Maio até Outubro.
Usei o tempo em pores-do-sol na praia, madrugadas em frente ao rio, viagens de jangada por rios castanhos, desamores latinos, percursos de mota de cabelos ao vento e labirínticas travessias pelas mentes dos maiores autores que já viveram.
Descobri mais de vinte bandas que me levantam os pés do chão e nunca devo ter gasto tanta energia a tocar bateria no espaço vazio. Sim, em 2007 deixei crescer asas e tornei-me num videoclip. (Mas ninguém sabe, continuam a achar que estão a falar com uma pessoa.)
Em 2007 descobri que Inglaterra afinal até é uma país do Terceiro Mundo, porque não há outra maneira de explicar que se encontre mais amor e carinho num banco de autocarro em San Salvador do que em toda uma carruagem no metro de Londres.
Seja como for, este ainda não foi o ano em que isso foi suficiente para eu achar que é mau viver num país rico. Na verdade, em 2007 aprendi a dar ainda mais valor ao que tenho e às oportunidades que me foram surgindo.
Este foi um ano de pessoas. Um ano de amizades puras, de corações a bater fortes, de emoções à flor da pele. Um ano de gargalhadas e arrepios.
Em 2007, andei de carro, mota, autocarro, scooter, carroça, comboio, metro, cavalo, tuc-tuc, ferry, lancha, barco a remos, bicicleta com pedais, bicicleta sem pedais, táxis legais, táxis ilegais e, mais do que gostaria, avião.
Também andei a pé - 2007 foi mais um ano sem carro.
Foi, ainda, o ano em que publiquei um livro. Sim, agora que penso, para além de ter arranjado o emprego duma vida, viajado durante quase quatro meses, ter passado seis meses de férias e me ter mudado para Londres, em 2007 ainda tive a boa sorte de ver o meu nome nas bancas da Fnac.
Seja como for, o melhor deste ano foi que andei de olhos bem abertos. Vi mais do Mundo do que alguma vez tinha sonhado ver em tão pouco tempo, e quem conhece o Mundo conhece as suas pessoas.
Sim, 2007 trouxe-me o acesso a muitos corações, muitas alegrias e tristezas, muitas angústias e satisfações.
Um ano muito rico 2007, tão rico que gastei muito mais do que ganhei - felizmente estes últimos dois meses estão a ajudar a equilibrar o orçamento.
Um ano bom. Tão bom tão bom que nem nos seus primeiros minutos, quando estava vestido de Dupont a dar beijinhos a uma Minnie, poderia imaginar que as coisas podiam melhorar.
Que bom.
E o melhor, necessariamente, ainda está por vir!..





