Primeiras Impressões da Terra


Fala-se muito de muita coisa. Então em música, todos os dias aparece alguém novo, algum teenie idol, algum ex-criminoso a debitar rimas, alguma banda de garagem inglesa ou algum australiano com uma viola acústica.

Depois, aparecem aqueles de quem não se fala. Há que gostar de uns para se saber dos outros, e por aí fora, até se descobrir música pouco divulgada que nos faz levantar do ar.

No meio disto, alguns vendem milhões e outros nem saem do anonimato. Alguns, sem voz, são aclamados por metade do Mundo e outros, génios, ficam para sempre confinados ao seu reduzido círculo de ouvintes. Ou vice-versa

Qualidade e vendas nem sempre são sinónimos. Geralmente nem são.

E independentemente disto e de tudo o resto, há um CD perfeito chamado First Impressions of Earth dos The Strokes. Já tem uns meses, não estou a dar novidade a ninguém.

Este cd é a obra de arte mais perfeita que alguém deu ao Mundo em 2006.

No meu 2006, há o antes e o depois disto. Este CD anda sozinho. Tem asas. É uma bomba de energia a rebentar em cada repeat. Demoro menos cinco minutos num percurso de vinte, quando o venho a ouvir a caminho de casa. Quase que voo.

E de cada vez que ouço, não resisto e volto a perguntar-me o que me pergunto há meses, sem encontrar a resposta: como é que alguém fez uma coisa assim?

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Pegadas na lama escura


I.

Esta pessoa que vemos na fotografia chama-se António de Almeida Santos e foi Presidente da Assembleia da República Portuguesa entre 1995 e 2002. Hoje, é presidente do partido que forma o nosso Governo e que detém a maioria dos assentos de deputado na Assembleia da República.

Recordemos alguma da Legislação do foro exclusivo da Assembleia da República, tal como é definida no site do Governo Português:

"Regimes de eleições e referendo; cidadania e símbolos nacionais; regimes do estado de sítio e de emergência; organização e funcionamento da Defesa Nacional, das forças de segurança, e dos Serviços de Informação; restrições a direitos dos militares e agentes das forças de segurança; regime geral do orçamento do Estado, das regiões e das autarquias"

Recordemos agora, muito resumidamente, alguns artigos que definem a Assembleia da República, tal como estão apresentados na Constituição da República Portuguesa. Segundo esse documento que rege o nosso Estado, "a Assembleia da República é a assembleia representativa de todos os cidadãos portugueses" (Artigo 147º), e "os Deputados representam todo o país " (Artigo 152º).

Sobre o mesmo tema, o site da Assembleia da República indica que "compete ao Presidente [da Assembleia da República] representar a Assembleia, presidir à Mesa, dirigir os trabalhos parlamentares, fixar a ordem do dia, depois de ouvir a Conferência dos Representantes dos Grupos Parlamentares, assinar os Decretos e outros documentos expedidos em nome da Assembleia da República e superintender na sua administração.

Ainda nesse site, vale a pena, antes de nos debruçarmos sobre o cerne deste artigo, recordar as palavras do actual Presidente da Assembleia, Jaime Gama, sobre o órgão a que preside: "A Assembleia da República é o coração da vida política e a alma da própria democracia, a casa representativa do povo português, eleita por todos nós, cidadãs e cidadãos de Portugal"

II.

Feita a apresentação ao ex-Presidente e explicitada que está a função e o impacto na vida de todos os portugueses do órgão a que durante sete anos presidiu, analisemos com atenção as palavras com que responde, numa entrevista de 29 de Novembro de 2006 à revista "Sábado", à pergunta As pessoas pedem-lhe cartas de recomendação?:

"É verdade. Confesso que uma vez por outra ainda meto cunhas, mas não tanto agora. Era fácil dizer: tenha paciência, mas cunhas eu não meto. Mas isso é desumanidade, porque ali há uma aflição e eu tenho possibilidade de a resolver."


Esta afirmação é tão enorme e despudoradamente aberrante, que eu não só não sei por que parte da sua alarvidade começar a dissecá-la, como também não creio que esteja a honrar a inteligência de Leitor algum ao tentar explicar-lhe a minha opinião sobre a mesma, já que estas palavras falam por si.

No entanto, pensemos em conjunto:

Haverá algo mais anti-democrático do que meter uma cunha? Haverá algo mais desprestigiante para uma instituição pública do que existirem cunhas perpetradas por altos membros do seu aparelho? Haverá algo tão despudorado como alguém eleito pela unanimidade dos deputados à Assembleia da República admitir que o faz? Haverá algo mais egocênctrico do que justificar uma cunha metida por abuso de poder, com o desejo de resolver uma aflição?

Haverá algo mais idiota do que ter sido Presidente da Assembleia da República durante sete anos e ainda achar que resolver o problema de alguém com uma cunha não vai causar um desequilíbrio no sistema - em qualquer sistema - prejudicando mais pessoas do que a que se ajudou?

III.

Haverá alguém, para além de mim, que se preocupe com isto?

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Caminhos de Fé


Lhasa, Tibete


copyright: El-Gee

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Voiceless interrogation

copyright: El-Gee

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Obrigado!


Viajar sozinho é, para todos os efeitos, uma experiência pessoal. De certa forma, e apesar das pessoas que se conhece e com quem se partilham Momentos, a memória da viagem será sempre individual, solitária. Isto é um grande perigo, pois põe em causa a Sobrevivência da viagem, que fica tenuamente ligada à frágil memória da pessoa que a viveu.

Ao passar para este blog os meus dias, e ao ver como era acompanhado por quem me lia, encontrei uma forma de legitimar a minha viagem, de a tornar real, na medida em que os Leitores eram a prova palpável de que eu estava a viajar e a garantia de que essa viagem nunca se perderia nos corredores incertos da memória.

E, quanto mais comentários lia, mais vontade tinha de partilhar, pois sabia que estava a viajar acompanhado. Os meus Leitores foram, para mim, um companheiro tão amigável e tão exigente como se estivessem a viajar comigo. Talvez por isso tenha, por eles, passado tantas horas em cafés de internet moribundos, escrevendo furiosamente em teclados hebraicos duros como pedra. Talvez por isso tenha cogitado mentalmente frases que resumissem o que sentia, durante o dia. Por vezes, dava por mim a sentir em frases; isto é, ao mesmo tempo que sentia, transformava os sentimentos em palavras.

Se bem que eu o fizesse com o simples propósito de proporcionar ao meu Leitor, mais tarde, uma leitura o mais aproximada possível dos meus sentimentos, esta é uma experiência curiosa e muito mais importante do que parece: colocar sentimentos em palavras é o maior desafio e o maior constrangimento da comunicação humana. Jamais serão as palavras suficientes para exprimir o que pensamos. Portanto, quanto mais tentarmos, melhor nos compreenderemos mutuamente.

Seja como for, porque foram a minha motivação e a minha crítica, dirijo a palavra - pela primeira vez neste blog, que sempre foi dirigido ao Abstracto - directamente aos meus Leitores durante esta viagem: Obrigado!

Deu-me imenso gozo ler os vossos comentários e, sem eles, facilmente teria perdido a motivação para escrever. Apesar de nunca ter respondido directamente a ninguém, procurei incorporar os vossos comentários, perguntas e expectativas nos meus textos seguintes. Daí que estes textos também sejam vossos.

Esta lenga-lenga parece totalmente absurda mas, dado que o blog é meu, resvervo-me o direito de estar aqui com lamechiches até me apetecer. Se o faço, é porque sinto mesmo que o vosso acompanhamento foi importante e quero deixar-vos isso claro.

Foi muito divertido ler desconhecidos gostarem do que eu escrevo e, ainda mais, saber que agradei aos meus amigos.

Vou continuar com a política de não responder aos comentários um a um, mas ao/à defensor/a ofendido/a dos hippies, gostava de lembrar que não é por uma pessoa me salvar a vida que mudo a minha opinião sobre ela: na verdade, um Ser Humano salvar a vida a outro é um acto normal e obrigatório, que não me merece louvor especial. O inverso é que merece crítica.

E agora, maisde1000vozes volta a Lisboa. Os que continuarem a ler, não esperem muito disto: servirá, como sempre, para descarregar Energia.

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Clubbin' in Beijing

Big Mac

Estou em Pequim durante um dia, à espera do meu voo para Lisboa. Um dia em Pequim. Chego às oito da manhã, o dia cai as seis da tarde. 15 milhões de pessoas, 10 horas. Um milhão e meio de pessoas por hora.

Realmente, estou mesmo só de passagem.

Depois de cidades relativamente acolhedoras como Kathmandu e Lhasa, sou apanhado desprevenido pela dimensão desumana (ironicamente, cheia de humanos) de Pequim. Como primeiro acto da minha jornada, entro num MacDonald’s. Lembro-me do meu amigo Lorena escrever no seu brilhante blog que, ao terminar o seu périplo de 3 meses pela Ásia e devorar um BigMac, sentir que essa sim era uma refeição verdadeiramente gourmet, depois das iguarias exóticas do Oriente. Na altura, compreendi o que escrevia mas não penetrei ao certo no significado da frase. Pareceu-me um divertido malabarismo literário. Não era.

Aquele Big Mac sabe-me a carne fresca, sabe-me a casa, sabe-me a metrópole, a avenidas com trânsito ordenado, a arranha-céus, a roupas caras, a multinacionais luzindo em cartazes de neon, a vidas agitadas, a mochilas de escola, a sobretudos compridos, a centro comercial, a passos apressados, a livros em inglês, a taxímetros que funcionam, a horários de autocarro, a calças de ganga, a sábado de manhã.

O MacDonald’s está cheio. As lojas, os transportes e as largas avenidas de oito faixas também. É bem cedo de manhã mas os 15 milhões de pessoas não despertam para um dia de descanso: despertam para o consumo, para o movimento, para uma Vida que se sente a respirar, nesta enorme metrópole. Se não fossem os sinais em chinês e os olhos em bico, poderia estar em qualquer grande metrópole desenvolvida do Mundo. É certo que cada cidade tem as suas características únicas e essenciais, a sua impressão digital que a distingue das outras. Porém, o primeiro olhar de alguém que chega da vastidão tibetana não procura logo o Único: começa por procurar o familiar. Os passeios limpos, o cheiro fresco a manhã metropolitana, os sinais de trânsito, os peões na passadeira, as montras familiares, os prédios enormes e os vidros que reflectem carros reluzentes que passam lá em baixo na estrada. Pequim é uma Cidade do Mundo. Dez minutos bastam para compreendê-lo.

Idealogias

Centro a minha exploração no que, para mim, é o mais vivo de qualquer cidade: a sua praça principal. Recordo o nome Tiananmen da memorável imagem do jovem estudante que, em protesto contra as restrições das liberdades individuais da China de 1989 (a data aqui é irrelevante, pois o protesto é tão actual hoje como há há 17 anos), se colocou diante de um tanque em movimento no meio da praça. Vivi durante muitos anos fascinado por esse herói anónimo que se lança voluntariamente para uma batalha desigual frente a um tanque de 10 toneladas, até ler, algures, um pequeno parágrafo onde alguém louvava o condutor do tanque.

O Mundo vê na imagem o Homen Livre contra a Máquina Opressora, mas esquece-se do militar que conduzia essa máquina que, apesar das ordens de avançar, não resiste à sua Humanidade e trava abruptamente quando o seu jovem conterrâneo se coloca em rota de colisão com a máquina assassina que conduz. Também ele, o segundo herói dessa imagem, terá desaparecido, provavelmente, nos corredores do terror chinês.

Estes e outros pensamentos me percorrem enquanto me deixo embasbacar pela enormidade da praça. É um espaço alarve, frio, cinzento. Terrível. Edifícios austeros decoram as suas extremidades e espalham-se inclusivamente pelo meio da praça, guardados por uma infinidade de guardas primorosamente fardados, nas suas expressões sérias. Que tristes! Tristes vidas, as dos guardas e soldados, empedradas marionetas de um regime obsoleto.

Diz Maruja Torres no seu magistral relato de um périplo pela América Latina, Amor América, que “No hay nada más absurdo que una frontera, ni nadie mas idiota que el tipo uniformado que se siente importante porque cree que divide el mundo al exigir un papel.”.

Não há nada mais absurdo do que uma praça principal com centenas de soldados armados, nem ninguém mais idiota do que o tipo uniformizado que se sente importante porque crê que é respeitável ao exigir ordem à força da arma que traz ao ombro.

Eu, cidadão orgulhosamente livre de um país liberal, olho com escárnio para aquelas figuras tristes, dizendo-lhes, na linguagem universal da mente: “a mim não me metes medo nem impões respeito; a mim fazes-me pena e provocas-me gargalhadas de indiferença”.

Que livre me sinto ali no meio daquela opressão socialista, rodeado pelas bandeiras chinesas reverencialmente guardadas, mirado constantemente pelos olhos aparentemente benevolentes de Mao Zedong, um dos maiores assassinos da história, cujo enorme retrato está pendurado numa das extremidades da praça. Mesmo por entre todo o burburinho económico das suas enormes avenidas, roupas caras, pessoas bem sorridentes e empresas de todo o Mundo que ali se estabelecem, a China é orgulhosamente socialista, opressora, castradora. A Praça da Tiananmen, palco vivo e efeverscente de amores e desamores, primeiros passos e trambolhões, visitas turísticas e piqueniques, bicicletas e papagaios de papel, é, ainda hoje perigosamente ideológica, esmagadora e anónima. Triste. Arcaica.

Ridícula.

A Cidade Proibida

Depois da Procura do passado em Lhasa, em Pequim desejo voltar à busca do presente. Porém, ecoam-me na memória os passos d’”O Último Imperador” nos pátios desertos da Cidade Proibida e, blasfemando contra Bertolucci pelo realismo com que filma esse espaço monumental, decido que não posso sair de Pequim sem ver o Palácio das maiores e mais poderosas dinastias chinesas de séculos idos, mesmo que para isso tenha de abdicar da continuação das minhas deambulações pela enorme e real metrópole que é a Pequim do século XXI.

Mesmo tendo visto o filme, não estava preparado para algo tão grande em espaço e tão sublime em beleza. A Cidade Proibida é uma sucessão de pátios muralhados, gigantescos, rodeados de templos e palácios. Após cada pátio, outro, como um sistema de comportas de água. Deixo-me assim derivar naquele sentido único, imaginando que sou uma rolha de cortiça no canal do Panamá: flutuo no primeiro pátio, vou até às portas do segundo, passo para lá, flutuo no segundo..e deixo-me ir, de pátio em pátio, de templo em templo, de memória em memória, de passo em passo, até ser só mais um pequeno chinesinho rodeado de eunucos. Até ser só um último imperador.
Quando saio, ainda imaginando ouvir o eco dos meus passos contra paredes frias da muralha, sou apenas o último português e os eunucos são turistas, tão numerosos quanto o eram os serventes dos imperadores Ming.

Clubbin’

Como insisto em andar a pé para todo o lado, regresso ao hostel onde tinha deixado a mochila de manhã, exausto. Tenho atrás de mim muitos quilómetros de caminhada num só dia. Caio no sofá do hall mas lembro-me de arrastar uma garrafa de cerveja antes da queda.

São conhecidas as propriedades sociológicas e químicas de uma garrafa de alcool sobre uma mesa. Em menos de nada, eu e os ocupantes dos restantes sofás somos um só e, passada a quarta cerveja partilhada, duas francesas não têm dificuldade nenhuma em arrastar-me a mim e a um argentino para uma noitada entre alunos de arquitectura franceses a estagiar em Pequim.

Descubro um bar urbano e universal, cheio de gente expatriada de todo Mundo. Descubro cocktails inebriantes, drum ‘n bass inovador, luzes fluorescentes. Descubro a dança, o calor das horas que passam, os rr’s afrancesados da Amandine.

Passam as horas e as bebidas, os sons e os calores, passam as luzes à minha volta, dançando comigo e eu com o espaço, movendo-me descomprometido ao som do momento, entre cá e lá, entre encarnado-vivo e amarelo fluorescente.

Uma delas olha-me com ar divertido durante longos segundos e depois segreda-me: “When, in two days, they at work ask you how was your weekend, you can answer” e faz um pequeno silêncio, arregalando os olhos castanhos-amêndoa, “”I was dancin’ in Beijing!””

Sorrio-lhe deleitado com a ideia, tão simples mas tão real. A amiga, que ouvira a conversa pelo canto do ouvido, puxa-me e diz: “Or even better: I was clubbin’ in Beijing!””

Olho-as meio rodopiante, entre Pequim e Paris, num enorme sorriso, enquando o remoinho dos nossos corpos inebriados varre a pista em espiral. Perdemos a noção do tempo e da linguagem, e deixamos as horas passar, por entre os nossos corpos inquietos, as luzes densas, o ritmo do baixo e o fresco calor dos cocktails..

Quando, 24 horas depois, momentos antes de aterrar em Munique, - após de ter sobrevoado, num dia sem nuvens e numa perseguição constante do pôr-do-sol, a muralha da China, o deserto de Gobi, toda a Sibéria e as repúblicas da Ásia Central - fecho os olhos, reclino a cadeira e recordo as última noite da minha viagem, os derradeiros momentos orientais do meu périplo pela Ásia montanhosa e o formigueiro provocador do meu corpo inquieto, uma frase sobrepõe-se a qualquer pensamento; uma frase sobrepõe-se a qualquer antevisão do regresso a casa, qualquer expectativa, qualquer saudade, qualquer ansiedade, qualquer medo, qualquer obstáculo; qualquer adversidade.

Uma frase preenche-me a mente, penetra-me a alma, flui-me livre por todos os músculos cansados depois de três semanas na estrada, fortalece-me para o regresso a casa, para mais uma partida, para outro regresso e para quantas chegadas e partidas a minha vida me reservar:

I was clubbin’ in Beijing.

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Luzes frias na madrugada, vapores quentes no infinito

Nao e necessaria muita modestia para admitir que nao consigo por em palavras o que e a paisagem do comboio que abandona a fria madrugada de Lhasa para se aventurar pelos Himalayas fora em direccao a Pequim.

Quando chego a plataforma de embarque, luzes bacas iluminam carruagens de um verde metalico, que desaparecem na no horizonte da estacao. Vapores quentes escorregam, vadios, pelas bocas dos passageiros que se apressam em direccao as suas respectivas carruagens, fundindo-se, sob a escassa claridade do dia que ainda nao nasceu, com os fumos dos cigarros que os oficiais de bordo fumam, antes de mais uma viagem. Impecaveis, fardados com densos sobretudos que enrijecem os seus troncos direitos, inalam uma ultima quente nicotina, antes de partirem em direccao ao coracao das montanhas, onde o oxigenio e escasso e fumar e proibido.

Como sempre, estou atrasado, e o frio e para mim uma dor distante, de quando acordei no meu gelado quarto em Lhasa. O calor das horas, do entusiasmo, do ar sufocante do taxi que me leva ate a estacao, consola os meus musculos gelados e, quando me sento a janela da carruagem-restaurante, o cha quente que me aquece as maos frias nao tem necessidade de confortar o resto do meu corpo aconchegado.

Nao sou o unico que se arrepia quando a enorme serpente de quinze carruagens se comeca a mover devagar e irrevogavelmente em direccao a capital da enorme China. Um frances com quem partilharei o quarto, as noites de conversa e as discussoes sobre as agonias da existencia olha igualmente pela janela e, sei-o, pensa tambem no sentido da vida a bordo. Ele, a sua mae, uma americana e uma mao-cheia de chineses ficarao o resto da tarde, cada um a sua janela, a meditar sobre sabe-se la que Verdade.

Nada e verdade num comboio em andamento. Enquanto penetramos no arido planalto tibetano, onde manadas enormes de potentes iaques pastam ate a imensidao do horizonte montanhoso, questiono-me sobre a inconsequencia de qualquer decisao a bordo. Enquanto troco impressoes sobre trivialidades, amor e literatura colombiana com os meus tres novos amigos, questiono-me sobre a solidao de qualquer acto naquele comboio em andamento.

Cada enorme montanha e deixada para tras pouco depois de aparecer, e torna-se apenas num ponto solitario num passado distante. O mesmo acontece aos cavalos selvagens, aos vales glaciares, ao pequeno pastor que luta contra a altitude e acena ao progresso que o ignora na sua passagem veloz pela planicie. Tudo fica para tras menos nos, peoes do destino voluntariamente condenados a uma existencia movel, onde tempo e espaco perdem a sua preponderencia. Sou parte de um corpo em movimento, que nao controlo e do qual nao posso escapar.

Apesar da libertacao da enorme planicie, do frio que imagino la fora enquanto mais um cha me aquece o corpo, das assustadoras montanhas que aparecem gigantescas na distancia, estou distante da liberdade. Nao posso ir para alem de uma determinada distancia limitada pelo metal do comboio, nao posso ir para alem de um sistema social criado pelo destino que junta os restantes passageiros na mesma jornada que eu. Em 48 horas num comboio, cabe-me uma parcela de um pequeno mundo novo, que ajudo a nascer e a sobreviver.

Os restantes passageiros tornam-se gradualmente no meu unico Mundo: sao os outros elementos de um pequeno e unico ecosistema que divaga pausadamente pela montanha acima. Ha uma total impotencia face ao destino - tudo o que faco, cada decisao que tomo, nao e totalmente independente. Estou num comboio do qual nao posso sair. Gradualmente, apercebo-me da minha inocencia, da minha impotencia, do ridiculo das minhas accoes: ha algo maior que as limita, uma entidade superior a mim, maior que as montanhas que agora desaparecem para dar lugar a uma infinita planicie coberta de neve e gelo: o Espaco. A Falta de Espaco.

Nessa tragica letargia, descontraio entre mais um cha, e aceito a minha impotencia, acabando por adorar o facto de que durante 48 horas nao tenho mais nenhuma responsabilidade para alem de viver e respirar. Mesmo que quisesse, nao poderia nem produzir nem decidir nenhuma accao radical que mudasse o que quer que fosse na minha vida e no Mundo. Entre Lhasa e Pequim, primeiro penetrando no mais remoto planalto do Mundo e depois cruzando o coracao da China industrial, vivo numa linha paralela ao Mundo real. Uma linha densa e metalizada.

Uma linha de comboio.

Enquanto os quilometros passam, a vida a bordo repete-se numa inconsequente rotina: ir ao quarto buscar algo, voltar a carruagem-restaurante, conversar com quem la esta, abandonar a mesa e ver a paisagem, fazer olhinhos a hospedeira, pedir uma refeicao, continuar a conversa, ler, fazer olhinhos a hospedeira, ir ao quarto buscar outra coisa qualquer, voltar a carruagem-restaurante, conversar com quem la esta, abandonar a mesa e ver a paisagem, pedir uma refeicao, continuar a conversa, fazer olhinhos a hospedeira, ler, pedir uma cerveja, fazer olhinhos a hospedeira, dizer boa noite as duas senhoras, pedir outra, discutir literatura com o frances, pedir outra, tentar falar chines com a hospedeira, pedir outra, discutir o sentido da vida com o frances, pedir outra, discutir politica com o frances, pedir outra, desistir de olhar para a hospedeira, voltar ao quarto, acabar a ultima cerveja, ler, dormir, acordar e repetir tudo de novo.

E nos intervalos, reflectir sobre tudo. No comboio que so para quatro vezes em 48 horas em cidades chinesas anonimas mas com mais habitantes que o meu pais, uso o tempo paralelo para ordenar as minhas ideias, ler o que nao leio durante o resto do ano, comover-me - quase - com as vistas intocadas que vejo da janela. A linha que une Lhasa a Golmud, durante as primeiras 12 horas, e a mais alta do Mundo e atravessa territorios que o homem nao habita. Enquanto o meu olhar se debruca pelo horizonte, penso no privilegio de ali estar, a atravessar todo o Tibete, o Tibete remoto, distante, frio e desumano, o Tibete virgem e desabitado, apenas desafiado pela poderosa maquina do meu comboio, que me protege e me transporta, para longe, para muito longe, sem parar, sem se queixar, sem interromper o ritmado passar das horas sobre os carris, ate ao Sol se por, ate se levantar, ate se por de novo, ate se levantar de novo, alaranjando finalmente sob a poluicao dos suburbios de Pequim.

Estou eu e mais 1000 passageiros. Sou mais um dentro daquela maquina que nos transporta cada um rumo a sua vida real, mais um passageiro anonimo numa linha premeditada.

Depois do frio planalto tibetano, das escuras noites dos Himalayas, do Norte da China e de muitas relacoes criadas ao sabor do tempo, o comboio abranda pausadamente as oito da manha do terceiro dia, e aparecem os primeiros predios, na manha baca e escurecida. Com o passar dos minutos, a serprente reduz a sua violenta marcha para um desolado trote. Guinchando numa estafada agonia, para finalmente, exausta, fria, massiva, sob as arcadas geladas de uma movimentada estacao.

Chegamos a Pequim.

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS